quinta-feira, 25 de março de 2010
Folhas que os ventos depositam...
Por mais receptivos que os árabes sejam, Albertina lembra que não tinham muito contato com os conterrâneos em Quixadá, “não havia entrosamento entre eles”, lembra a filha mais velha, segunda na ordem. “Com o tempo, muitos foram embora, morrendo, e acabamos tendo contato mesmo com os da geração seguinte”, diz. A falta de aproximação com as demais famílias árabes fortaleceram o entrosamento familiar tão valorizado pelo pai, seu Abraão. Ele comentava uma grande diferença da sua terra natal com sua terra atual. Na Síria, ele tinha mais liberdade. Não era como a relação entre patrão e empregado. Era uma relação familiar de apoio, que ele sempre procurou ter com sua mulher e seus filhos no Brasil.
Em Quixadá, abriram uma loja de tecido, onde também vendia sapatos, óculos. “Naquela época, vendia de tudo nas lojas no interior”, lembra José. Abraão, como todo árabe, era um comerciante nato. Mas era Rosa que dava o diferencial na loja. A filha Giselda diz que a mãe tinha muita sensibilidade, um toque para moda. “Ela não comprava muito tecido de uma mesma estampa, comprava só um corte para não ter mais de uma pessoa com o vestido igual na cidade”, lembra. Muito comunicativa, Rosa também era muito franca. “Dizia as coisas, mas sem querer magoar”, lembra a filha ao falar sobre quando foi pedida em casamento. Mamãe disse logo para o meu noivo: “É uma menina muito boa, mas não sabe fazer nada”, ri.
Com seis filhos, a família morava numa casa comum, mas bem confortável, com fundo correspondente. A loja de tecidos, que durou até 1947, localizava-se ao lado. Rosa e Abraão falavam em árabe quando o assunto era particular. Falavam com os filhos em português. Giselda e Albertina disseram que era porque nenhum filho teve muito interesse em aprender. “só o Aziz que fala mais ou menos”, lembra Giselda. Os filhos aprenderam algumas expressões em árabe, mas se sentiam mais à vontade falando o português.
Folhas que o vento espalha...
Numa cultura em que predomina o islamismo, o casal era católico romano praticante. Giselda lembra que todos os dias às seis da noite, na hora do anjo, os pais cantavam o terço. Quando tinha alguma visita, eles a convidavam a rezar com eles. “Se a visita não quisesse, eles pediam licença e iam rezar”, lembra Albertina.
Folhas que os ventos levam...
Abraão morreu em 15 de junho de 1969, aos 68, por causa de sua bronquite crônica e de problemas de coração. Giselda acha que o pai morreu porque não lutou para viver. “Ao contrário de mamãe, que não queria morrer, papai meio que se entregou”, diz. Com a morte do pai, as sementes já tinham dado frutos. Rosa não conseguiu passar um dia na casa que o casal morava sem o marido, dizia que tudo a fazia lembrar-se do seu amado. Veio morar com suas filhas Maria e Giselda, que já eram casadas e estavam acomodadas em Fortaleza. Quando voltava para Quixadá, ficava na casa da filha Albertina. Não gostava de ficar sozinha.
Giselda lembra que a mãe ia à missa todos os dias, “pelos menos para comungar”. A filha considera o dia da morte da mãe como um dia muito espiritual. Foi no dia 15 de março de 1992, aos 88 anos, em Quixadá. “nesse dia mamãe estava muito mal e não pôde ir à missa”. A filha se emociona e pede ajuda à irmã Albertina para contar. A freira da igreja sentiu a falta de dona Rosa e foi em sua casa levar a comunhão. Rosa comungou e deitou-se na rede para descansar. As filhas dizem que a mãe já previa que eram seus últimos momentos. O filho Aziz, que estava presente, disse: “deixe de besteira mamãe”. Mas não era besteira. Rosa, ao deitar, fechou os olhos e foi se encontrar com Abraão.
Sementes que dão frutos...
As sementes acabaram germinando, criando frutos e fincando raízes no Ceará. A família Baquit está em sua quinta geração e os ensinamentos e valores aprendidos estão sempre sendo passados de pai para filho.
Especial Síria
Apaixonada por culinária, Nilza Baquit, esposa de José, aprendeu com a sogra os mais tradicionais pratos árabes. Como na cultura síria “a medida do amor é a medida do comer”, Nilza se preocupou em adaptar as receitas aprendidas para agradar o marido e os filhos. Inovadora e sempre atenta, adicionou temperos novos e deu seu toque especial.
O almoço em família que acontecia toda semana na casa da sogra continua acontecendo. Agora, é em sua própria casa. Nilza tem uma cozinheira que a ajuda em dias de almoço típico, mas ela faz questão de cuidar dos kibes sozinha. Os kibes são a comida que os filhos e netos mais gostam e nada melhor que uma comida feita com amor e cuidado. “Me acordo cinco da manhã para fazer os kibes”, fala Nilza. Faz de frango para o filho que não come carne bovina, faz com recheio de ovo de codorna (adaptação que aprendeu quando morou em Goiás), faz frito, ao forno, com recheio de castanha (que é o mais pedido). Nilza não faz o kibe cru. “A dona Rosa fazia muito, mas como o José não gostava, eu não me interessei em aprender”, explica.
O tabule, salada que leva alface, acelga, trigo fino cru, tomate, azeite, limão e sal, também leva cebola. Nilza não põe esse último tempero, pois o marido e os filhos não gostam. “Mas a dona Rosa colocava”, diz. O charuto, feito originalmente com folha de parreira, era feito com folha de couve ou com repolho. “Não tem parreira no Ceará, né?!”, explica. Nilza gosta de fazer com repolho, porque José gosta mais.
O tempero que dona Rosa mais usava era a manteiga da terra. Dona Nilza procura variar e experimentar novas combinações. Usa molho de soja, tabletes de tempero pronto. “Que ninguém saiba disso”, brinca.
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
“Não como Corrs”
A integrante mais nova dos Corrs mostra maturidade em álbum solo
Ninguém discorda que The Corrs é uma banda maravilhosa. E é seguindo esse alto nível que depois de mais de 12 anos de carreira e mais de 30 milhões de álbuns vendidos, a vocalista do grupo, Andrea Corr, lança seu álbum de estréia: “Ten feet high” (Andrea Corr; Atlantic Records 12 faixas, sendo a última faixa bônus; preço médio: 29,90).
Aos 15 anos, Andrea se junta aos irmãos mais velhos para começar a trabalhar numa das bandas irlandesas mais bem sucedidas no mundo. Com cinco álbuns de músicas exclusivas, um acústico MTV e uma coletânea, a banda ficou bem conhecida no Brasil ao ter uma música (“long night”) como tema da novela “Senhora do destino”.
Depois do último álbum “Home”, em 2005, os irmãos mais velhos decidem dar um tempo com a família. É a vez de Andrea lançar a sorte em sua carreira solo. O álbum “Ten feet high” não conta com o marcante violino de Sharon em todas as músicas, o que pode parecer estranho no primeiro momento para os fãs de The Corrs. Mas sua ausência não deixa as músicas ficarem mais simples, pois Andrea se utiliza muito bem dos demais instrumentos. O piano nunca tocado na banda com os irmãos é o seu instrumento chave. A parte instrumental do álbum conta com harpa, guitarra, violão, trompete, violoncelo, saxofone e o violino em duas músicas.
Apaixonada por canções baseadas em histórias, como as de Neil Young e Simon & Garfunkel que a transportam para os mais variados lugares, tinha vontade de fazer um álbum cheio de pequenas histórias, onde sua imaginação pudesse fluir. E conseguiu. São onze faixas de historinhas de pessoas comuns e da própria cantora, que se encaixam com o ritmo da canção. Das onze faixas, Andrea compôs dez.
Ao ouvirmos a primeira faixa do álbum “Hello boys”, já percebemos uma nova Andrea. A cantora de desvincula da sua fama de meiga e bonequinha com a frase: “Eu estou aqui para jogar”. As faixas seguintes vão mostrando as várias facetas da artista e sua capacidade de criar e se reiventar. Na faixa “Anybody there”, Andrea é uma pessoa solítária e frágil. “Shame on you” é o sucesso das rádios. É uma música dançante que mostra uma Andrea desiludida amorosamente com alguém que a magoou. Também tem a Andrea romântica assumida nas faixas “I do”, “24 hours” “This is what it’s all about” e “Take me i’m yours”. Uma outra Andrea ferida e frágil na faixa que dá nome ao álbum “ten feet high”, uma das melhores do álbum, com uma orquestra maravilhosa.
Como não podiam faltar, suas pequenas histórias sobre pessoas comuns nas faixas “Champagne from a straw”, “Stupidest girl in the world” e “Ideal world”. Destaque especial para a faixa oito “This is what it’s all about”, uma das músicas mais suaves e originais do álbum, em que a cantora se utiliza apenas da voz e do violão. A música tem uma forte influência da bossa nova e é perfeita para ouvir abraçado com o companheiro. “Take me I’m yours” é uma música de letra romântica, mas de ritmo dançante. Boa para dançar numa festa ou cantar em frente ao espelho quando ninguém estiver olhando.
A artista disse em entrevista que esse foi um álbum onde ela se divertiu e se aventurou. E que sua alegria está mais em ter conseguido fazer esse trabalho do que em saber os resultados. Mas, com um sorriso modesto, ela diz: “Mas naturalmente, eu espero que o álbum tenha sido bom. Eu acho que mereço”.
O segredo é não querer comparar o novo álbum da cantora com seus antigos trabalhos, nem esperar que o trabalho solo de Andrea preencha o vazio deixado pela banda. É apreciar esse trabalho bem produzido e diferente de tudo que a cantora já havia feito. É um álbum solo, e nele só se encontra a essência de uma Corr: a da caçula emancipada Andrea.
Ingrid Baquit
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Romântica assumida

Com novo pseudônimo, Meg Cabot desabrocha em maturidade.
As horas gastas na juventude lendo as obras de Jane Austen trouxeram grandes frutos para a nova safra de romances de Meggin Patricia Cabot. Conhecida como a autora da coleção “O diário da princesa”, Patricia Cabot mostra sua faceta mais madura em “A Rosa do Inverno” (Patricia Cabot, 414 páginas, Editora Essência, 2008, preço médio: 45 reais).
Cabot consegue utilizar o melhor dos dois tempos. A história se passa numa Inglaterra de 1860, onde a mulher continua sendo subordinada e um pouco submissa ao homem, principalmente às regras da sociedade inglesa daquela época. Nessa parte, Patrícia mostra a influência das obras de Jane Austen. Um livro que remete aos clássicos sem precisar ser de séculos passados. Mistura inocência com sensualidade, onde a forma mais forte e convincente de atração é a inteligência.
“A Rosa do Inverno” conta a história de Edward Rawlings, um homem da nobreza que não quer assumir o título de duque. Para não ter de cumprir as responsabilidades do cargo, Rawlings sai em busca do legítimo herdeiro do trono, o sobrinho Jeremy de 10 anos. Jeremy é órfão e mora com a tia Pegeen, uma moça um tanto liberal para a época. Ao se mudar para o Solar de Rawlings com o sobrinho, Pegeen sente que dessa vez o coração dela está tomando as rédeas. Ela pode resistir ao dinheiro e ao status, mas conseguirá resistir a Edward?
O livro é uma história cuja protagonista não é uma mocinha no sentido frágil da palavra, mas uma mulher que fica independente por motivos adversos. “Uma imagem inesperada e espontânea daquelas mãos no seu corpo fez com que o seu rosto ficasse bem vermelho. Santo Deus, o que ela tinha na cabeça? Tinha conhecido o homem havia pouco mais de uma hora e já estava tendo fantasias sobre...”
“A Rosa do Inverno” é um romance que exala sensualidade e romantismo. Fala sobre destino e escolha, especialmente dos dilemas femininos: desejos, temores, papel na sociedade. Patricia faz um relato interessante da mulher naquela época ao confrontar o instinto de se entregar a um homem e a decisão de manter a independência. “Não, Peggen MacDougal era perigosa porque beijava daquele jeito e não era a esposa ou amante de ninguém. O que significava que ela era livre demais e podia se apaixonar... Ou, o que era pior, ela era livre e ele podia se apaixonar.”
Um livro recomendado para as mulheres românticas que acreditam no amor suspirante e delicioso e para os homens que precisam aprender a conquistar as mulheres da forma mais interessante. Um livro para a gente ler com avidez, mas com suspiros vagarosos e profundos. “A Rosa do Inverno” é uma leitura que combina com a atmosfera primaveril.
Autora da coleção “O diário da princesa” e de livros de natureza infanto-juvenil, Cabot prova que amadureceu na escrita e a nova safra de romances consegue agradar também aos adultos. E às românticas assumidas mais exigentes.
Ingrid Baquit
quarta-feira, 25 de novembro de 2009
Confissões de uma mente sonhadora
Ter ou não um diário? Eis a questão! Algumas amigas dizem que é coisa de criança ou de mocinha. Para elas, já estou adulta o bastante para não utilizar mais esses aparatos infanto-juvenis. Será? Em um mundo efêmero, nada melhor que pegar as idéias da cabeça e guardar em um lugar em que poderei ver quando mais precisar.
Confesso que por ser uma pessoa inconstante que descobre coisas novas a cada minuto, a idéia de poder ver a evolução do pensamento e da vivência me parece muito interessante. Ainda se tem tanta coisa para aprender, para viver e experimentar. Espero ter maturidade para tirar todas as lições possíveis dessas situações, aprendendo com meus erros da melhor forma. E nessa hora eu penso: por que cometer as mesmas besteiras se existe tantos outras para cometer?
Aprendi com Getúlio Vargas que prefiro ser interpretado a me explicar. Sou um livro inacabado, com páginas em branco esperando ser preenchidas. De preferência com muitas cores, formas e amores. Classifico-me como um ser inconstante, como uma pessoa apaixonada que vai se descobrindo aos poucos e assim, construindo uma vida. Vou seguindo minha estrada sem pedir carona. Ás vezes conto com uma mãozinha dos meus amigos e da minha família. Até porque, não saberia viver sem as pessoas mais importantes da minha vida.
Acho que vou escrever um diário sim. Afinal, onde mais posso registrar minhas viagens ao redor do mundo? E quando eu quiser escrever minhas memórias? Meus diários me forneceriam uma ótima base. Vai que um dia eu vire famosa e jornalistas queiram escrever minha biografia. Melhor prevenir que remediar, já dizia minha avó.
Decidido! Vou escrever não só um, mas vários diários. Memórias de minhas viagens, de momentos que merecem ser lembrados e que podem ser passados para gerações posteriores. É até mais um motivo para juntar dinheiro a fim de conhecer o mundo. E quando eu for requerer um emprego como correspondente internacional, já vou ter uma bagagem cultural registrada no papel e na mente.
E assim vou vivendo, agindo, esperando, sonhando, amando, florescendo!
Dançando na corda bamba da vida de rosto colado, abraçando apertado. Sob a luz da lua, sigo dançando com a vida. Danço em todos os ritmos. Alguns mais devagar, outros mais rápidos, dependendo do meu humor. E como já dizia King Harvest, sigo os passos de Toploader: Eu estou apenas dançando sob o luar.